Gaza, a Cisjordânia e o Peso de uma História Inacabada

Por Macela Carmo dos Santos, 22/07/2026 – Versão em Português. Original no fpif.org 🔗

Cada bomba lançada sobre Gaza foi, em parte, paga pelos contribuintes americanos. Os Estados Unidos forneceram a Israel mais ajuda militar do que qualquer outro país — mais de 3,8 bilhões de dólares anualmente sob um acordo de longa data, com dezenas de bilhões a mais aprovados desde outubro de 2023. Isso faz da crise atual em Gaza, na Cisjordânia e no Líbano não apenas uma história do Oriente Médio, mas uma história de política externa americana, na qual Washington detém mais poder de influência do que optou por usar.

As raízes do conflito atual remontam a 1948, quando cerca de 700 mil palestinos foram expulsos de suas casas naquilo que os palestinos chamam de Nakba, ou “catástrofe”. Mais de 400 vilarejos foram esvaziados durante a guerra em torno da fundação de Israel. Décadas de ocupação e expansão de assentamentos se seguiram, muitas delas viabilizadas pela cobertura diplomática dos EUA nas Nações Unidas.

Desde 7 de outubro de 2023, quando cerca de 1.200 israelenses foram mortos em um ataque do Hamas e em seus desdobramentos, mais de 73 mil palestinos foram mortos em Gaza por fogo direto. E os assassinatos não cessaram desde o cessar-fogo de outubro de 2025. O Ministério da Saúde de Gaza relata que mais de 1.100 palestinos foram mortos em ataques israelenses contínuos nos nove meses desde a assinatura da trégua. Israel violou o acordo quase diariamente, incluindo mais de 260 dias consecutivos de ataques, tiroteios e demolições documentados até meados de julho. Nas palavras de um morador da Cidade de Gaza que perdeu um parente em um ataque recente: o cessar-fogo é uma ilusão.

Na Cisjordânia, enquanto isso, mais de 1.000 palestinos foram mortos desde outubro de 2023, o período mais letal desde que a ONU começou a monitorar as mortes em 2005. A ofensiva israelense de 2024 no Líbano matou mais de 3.445 pessoas.

A Corte Internacional de Justiça decidiu, em janeiro de 2024, que o caso de genocídio movido pela África do Sul contra Israel era plausível o suficiente para justificar medidas emergenciais. A Human Rights Watch documentou o que descreve como crimes de guerra e punição coletiva. Israel contesta a caracterização de genocídio, citando os contínuos disparos de foguetes do Hamas e seu direito de responder ao 7 de outubro.

Um Cenário Político e Público em Transformação

Este não é um debate estático. Dois acontecimentos deste mês sugerem que o poder de influência dos EUA sobre Israel deixou de ser uma alavanca teórica e se tornou uma questão política concreta. Em 15 de julho, mais de 100 deputados democratas, incluindo a ex-presidente da Câmara Nancy Pelosi, votaram a favor de uma emenda para cortar totalmente a ajuda militar a Israel. A medida foi rejeitada, mas os 103 votos favoráveis marcam uma ruptura dramática com uma bancada democrata que historicamente tratou o apoio incondicional a Israel como política consolidada.

Essa votação reflete uma mudança mais ampla na opinião pública. Uma pesquisa do Pew Research, realizada em maio de 2026, constatou que a visão favorável dos americanos em relação ao povo israelense caiu de 56% para 52% em apenas um ano, enquanto as visões desfavoráveis sobre o governo israelense subiram para 62% — o maior índice já registrado. Entre adultos com menos de 30 anos, a simpatia pelos palestinos (58%) agora supera significativamente a simpatia pelos israelenses (32%), uma inversão impulsionada principalmente por jovens democratas.

Essa mudança não passou despercebida em Israel. O Wall Street Journal noticiou este mês que o governo israelense gastou pelo menos 50 milhões de dólares — parte de um orçamento de diplomacia pública de 2026 que ultrapassa 700 milhões de dólares — em uma campanha de influência nos Estados Unidos, usando mensagens de texto geradas por inteligência artificial e parcerias com veículos de mídia conservadores. A campanha conta com uma empresa dirigida por Brad Parscale, assessor de longa data de Trump, para reverter esse declínio na opinião pública americana. Até o vice-presidente dos EUA, JD Vance, acusou autoridades israelenses de tentar manipular a opinião pública americana para manter o conflito atual em curso.

Caminhos a Seguir

Duas mudanças na postura dos EUA poderiam alterar essa trajetória, e ambas têm hoje mais respaldo político do que tinham há apenas um ano. A primeira seria condicionar a ajuda militar ao cumprimento comprovado das leis da guerra. Os Estados Unidos aplicam esse padrão, ao menos no papel, a outros beneficiários de armamento americano por meio das Leis Leahy. O que falta é fiscalização, não nova legislação — e a votação na Câmara sugere que há um apetite real crescendo nessa direção.

A segunda mudança envolveria apoiar, em vez de obstruir, os mecanismos internacionais de responsabilização. Isso permitiria que os processos na Corte Internacional de Justiça e no Tribunal Penal Internacional avançassem, aliados a um peso diplomático real por trás do cumprimento do cessar-fogo e de um caminho negociado rumo à autodeterminação palestina, com garantias de segurança para Israel.

Nenhuma das duas é provável sob uma administração que já se moveu para sancionar autoridades do TPI. Mas o poder de influência que permanece sem uso não desaparece. Ele fica disponível para o próximo Congresso, ou para que a pressão pública sustentada o retome. Os números sugerem que essa pressão está crescendo, independentemente de a própria campanha de influência de Israel conseguir ou não desacelerá-la.


Artigo originalmente publicado em inglês na Foreign Policy in Focus, um projeto do Institute for Policy Studies.


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