A Ampliação do Arco de Mudança de Regime Liderada por Israel

De Gaza ao Líbano e a Teerã, Israel busca transformar a ordem do Oriente Médio.

Por Macela Carmo dos Santos | 29 de julho de 2026 Versão em Português. Original no fpif.org

O padrão em Gaza foi uma mudança de regime disfarçada de combate ao terrorismo: desmantelar o Hamas e, com ele, qualquer autoridade governante palestina capaz de resistir ao controle israelense. Esse mesmo padrão agora foi exportado para o Irã — e Washington forneceu boa parte do poder de fogo.

Em 28 de fevereiro de 2026, um ataque conjunto entre Estados Unidos e Israel matou o líder supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei, junto com vários membros de sua família, em seu complexo em Teerã. Donald Trump confirmou a morte e a chamou de “a maior chance para o povo iraniano retomar seu país” — uma linguagem de mudança de regime, não de autodefesa. Estudiosos de direito que escrevem para a Just Security já pediram que o Congresso investigue a operação, argumentando que se tratou de um assassinato político clássico que efetivamente encerrou uma norma americana de décadas contra matar chefes de Estado estrangeiros.

O assassinato não foi uma operação israelense que os Estados Unidos apenas aprovaram depois do fato. A inteligência americana o tornou possível. A CIA rastreou os movimentos de Khamenei por meses e passou informações precisas de localização a Israel, tendo, segundo relatos, antecipado o momento do ataque para atingi-lo durante uma reunião de liderança. O Reino Unido não esteve envolvido nessa inteligência, mas se alinhou rapidamente, política e militarmente, com a operação. Ele posicionou a RAF defensivamente depois que o Irã atingiu bases britânicas no Bahrein, no Catar e no Chipre, enquanto o secretário de Defesa britânico, John Healey, declarou publicamente que “poucos vão lamentar” a morte de Khamenei.

O armamento por trás de tudo isso continua vindo da mesma fonte. Desde que os ataques de fevereiro começaram, os Estados Unidos entregaram mais de 115.600 toneladas de equipamento militar a Israel, em mais de 400 voos de carga e remessas marítimas que chegaram aos portos de Haifa e Ashdod, sob o programa de Vendas Militares Estrangeiras do Pentágono. Muitas dessas transferências ocorreram por uma via expressa que ignora a revisão padrão do Congresso.

A guerra que se seguiu já custou milhares de vidas de ambos os lados e empurrou a região para uma crise mais ampla. O Irã ameaçou repetidamente fechar o Estreito de Ormuz — por onde passa cerca de um quinto do petróleo mundial — e depois efetivamente o fechou. Um frágil acordo-quadro assinado em junho não conseguiu se sustentar.

Enquanto isso, o mesmo roteiro continua ao lado. As forças israelenses passaram 2026 demolindo cidades inteiras ao longo da fronteira sul do Líbano — Naqoura, Bint Jbeil, Khiam e dezenas de outras. O ministro da Defesa israelense, Israel Katz, disse às tropas: “estamos removendo a ameaça assim como fizemos em Gaza.” Jornalistas, autoridades da ONU e observadores de direitos humanos traçaram explicitamente o paralelo com a destruição de Gaza: uma avaliação do PNUD contabilizou mais de 11 mil edifícios completamente destruídos, e uma análise de satélite do veículo francês Le Monde constatou que 45% das áreas urbanas no sul do Líbano foram danificadas ou arrasadas somente desde março.

Os Estados Unidos tiveram poder real de influência para deter isso e, em grande parte, optaram por não usá-lo. Somente esta semana o Departamento de Estado anunciou uma retirada limitada de “zona piloto” de três vilarejos. Mas dois deles, segundo reportagem do The National, já estavam vazios de tropas israelenses, o que significa que a mudança real no terreno é menor do que o anúncio sugere. Israel afirmou que pretende permanecer em partes do sul do Líbano por meses ou anos.

O padrão em Gaza, no Irã e no Líbano é consistente: a ação militar israelense tem sido acompanhada por cobertura de inteligência e diplomacia americana e aliada, enquanto o governo dos EUA se recusa a condicionar seu apoio à interrupção efetiva dos combates.

O governo Trump e autoridades israelenses defendem o ataque contra Khamenei como uma autodefesa necessária diante do programa nuclear do Irã e de seu apoio ao Hezbollah, ao Hamas e a outros grupos armados. Essa defesa é frágil: mesmo os estudiosos de direito internacional que classificaram Khamenei como um “alvo legítimo” segundo as leis dos conflitos armados evitaram chamar o ataque de autodefesa legal sob a Carta da ONU. Outros especialistas jurídicos foram diretos ao afirmar que a operação não teve justificativa de segurança alguma, e sim um assassinato político que uma democracia jamais deveria tratar como política de rotina. Quanto ao Líbano, Israel sustenta que suas demolições visam à infraestrutura do Hezbollah, e não civis, embora observadores da ONU no terreno tenham documentado o mesmo padrão de destruição visto em Gaza.

Nada disso precisa ser a configuração permanente da região. Dois desenvolvimentos já em curso apontam para um caminho diferente.

Primeiro, o quadro de retirada do Líbano, por menores que sejam seus passos iniciais, é real. Embora a retirada da “zona piloto” desta semana cubra apenas três vilarejos, dois deles já vazios, trata-se da primeira retirada israelense do território libanês desde que a invasão terrestre começou em março, e ela existe porque Líbano, Israel e Estados Unidos se sentaram em Roma e a negociaram. Uma pressão diplomática sustentada para expandir esse quadro, em vez de deixá-lo estagnado em três vilarejos, é um próximo passo concreto e alcançável que o Congresso e o público americano podem exigir nominalmente.

Segundo, uma investigação do Congresso sobre o ataque a Khamenei ainda pode acontecer e teria importância além deste caso isolado. O pedido de audiências da Just Security não trata apenas de atribuir culpa. Trata-se de saber se os Estados Unidos reconstroem a salvaguarda que acabaram de quebrar, para que esse tipo de ataque de decapitação não se torne prática normal para futuros governos, de qualquer partido, em futuros conflitos. Essa é uma batalha que ainda pode ser vencida em Washington.


Artigo originalmente publicado em inglês na Foreign Policy in Focus, um projeto do Institute for Policy Studies.


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