Tentando Sufocar as Armas Por Trás do Genocídio em Gaza

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Uma rede de cidadãos está usando a cadeia de suprimentos como campo de batalha.

Por Macela Carmo dos Santos | 31 de agosto de 2026 Versão em Português Original no https://fpif.org

Há quase três anos, ministérios de relações exteriores em Washington, Londres e Bruxelas debatem embargos de armas a Israel em salas de comitê, quase sempre sem resultado. Enquanto isso, uma rede bem menos formal de pessoas comuns vem tentando alcançar o mesmo objetivo a partir da base — um portão de fábrica, um registro de acionistas e um fundo de pensão de cada vez.

A Palestine Action, rede de ação direta fundada no Reino Unido em 2020 por Huda Ammori e Richard Barnard, se apoia numa teoria de mudança simples: se os governos não pararem de armar Israel, os ativistas vão atrás das empresas que fazem esse trabalho por eles. Seu alvo central tem sido a Elbit Systems, a maior fabricante de armas de Israel, responsável pela maior parte dos drones, munições e equipamentos de vigilância usados em Gaza e na Cisjordânia.

Mas a verdadeira inovação da rede está em como ela mapeia toda a cadeia de suprimentos — não apenas as fábricas da Elbit, mas os bancos que detêm suas ações, os recrutadores que a abastecem de mão de obra, as empresas terceirizadas que mantêm suas salas limpas e os proprietários locais que alugam espaço para ela. Cada elo virou um ponto de pressão.

Como a Rede Funciona na Prática

A Palestine Action não é bem uma organização única, e sim uma constelação. Sua estrutura em formato de rede — um núcleo no Reino Unido somado a franquias, afiliadas e desdobramentos que adotaram seu nome, suas táticas, ou ambos — inclui a Unity of Fields (antiga Palestine Action US) e células simpatizantes no Canadá, na França e na Alemanha.

As táticas variam bastante. Algumas são do tipo que vira manchete: bloqueio de entradas de fábricas, ocupação de telhados, pichação de aeronaves militares. Outras são mais discretas e muito mais replicáveis por uma pessoa comum — pesquisar as relações de fornecimento de uma empresa, comparecer a uma assembleia de acionistas, protocolar um pedido de acesso a registros públicos sobre as participações de um fundo de pensão, ou simplesmente recusar-se a manter conta em uma instituição que financia a guerra.

Essa segunda vertente produziu algumas das vitórias mais duradouras. Em 2026, por exemplo, Urbana, em Illinois, tornou-se a primeira cidade do estado a proibir que seus investimentos previdenciários fossem aplicados nas 100 maiores produtoras de armas do mundo; Burbank, na Califórnia, desinvestiu da Caterpillar e da Honeywell depois de uma campanha de coalizão local; e o fundo de pensão do estado de Maryland vendeu 85% de suas participações em títulos israelenses — cerca de US$ 62 milhões — após mais de um ano de pressão sustentada. Nenhuma dessas campanhas exigiu que alguém escalasse uma cerca.

A campanha da Palestine Action contra as operações da Elbit no Reino Unido é apontada como responsável pelo fechamento da sede londrina da empresa, pelo cancelamento de contratos com o Ministério da Defesa britânico e pela perda de sua parceira de recrutamento no país. O banco Barclays — alvo antigo do boicote paralelo da Palestine Solidarity Campaign — deixou de deter ações da Elbit em 2024, algo que ativistas apontam como prova de que a pressão sustentada, mesmo aquém de um desinvestimento total, movimenta dinheiro institucional.

Nada disso deteve a guerra. Mas tornou fazer negócios com a indústria bélica israelense mensuravelmente mais caro e mais tóxico em termos de reputação — exatamente o mecanismo que sanções e embargos deveriam produzir quando os ministérios de relações exteriores não agem.

A Questão da Segurança

Em julho de 2025, o governo do Reino Unido classificou a Palestine Action como organização terrorista sob o Terrorism Act 2000, tornando a filiação ou o apoio expresso ao grupo puníveis com até 14 anos de prisão. Em fevereiro de 2026, um painel da High Court decidiu que a proibição era desproporcional e ilegal, observando que apenas uma pequena fração das ações do grupo se enquadrava na definição legal de terrorismo, e que a legislação criminal comum já era suficiente para processar qualquer ato de violência. O governo recorreu, e em junho de 2026 a Court of Appeal reverteu essa decisão e manteve a proibição. Mais de 1.600 pessoas foram presas no Reino Unido só por expressar apoio ao grupo desde que a proscrição entrou em vigor, e quatro ativistas condenados apenas por dano criminal em uma fábrica da Elbit foram sentenciados com base numa suposta “conexão terrorista”.

Trata-se de um ambiente jurídico genuinamente severo, e específico do Reino Unido. Ações diretas que envolvem dano a propriedade ou bloqueios carregam risco processual real em qualquer lugar, inclusive nos Estados Unidos, onde a Unity of Fields e grupos semelhantes não são proscritos, mas ativistas individuais podem — e de fato costumam — responder criminalmente por ações como o bloqueio, em 2023, do escritório da Elbit em Cambridge, Massachusetts.

Já a vertente de boicote, desinvestimento e pressão sobre acionistas (BDS) — escrever para um conselho de fundo de pensão, organizar um boicote bancário, apoiar campanhas endossadas pelo BDS — não carrega nenhum desse risco e continua sendo liberdade de expressão e organização cívica plenamente legal nos Estados Unidos e na maior parte da Europa. As duas vertentes são constantemente confundidas, inclusive pelo próprio governo britânico, mas não são a mesma coisa. Essa confusão é justamente o que torna a proscrição um instrumento tão bruto: ela criminaliza uma faixa junto com um bloqueio.

Uma Pessoa Ainda Importa

Boa parte do poder de barganha real dessa rede vem de decisões individuais e nada glamorosas. Huda Ammori não esperou um governo agir; ela e um punhado de outras pessoas começaram, em 2020, uma campanha contra uma única empresa que desde então mudou a forma como um movimento muito maior pensa sobre cadeias de suprimentos. O aplicativo Boycat — o que mais se aproxima, no movimento BDS, de uma lista oficial de alvos — existe porque alguém decidiu que a escolha do consumidor precisava de informação melhor, não de mais slogans. Um único vereador disposto a levar uma resolução de desinvestimento a votação em Urbana fez o que nenhum protesto em frente a uma fábrica conseguiria: movimentou dinheiro de pensão de verdade.

Nada disso exigiu que alguém corresse o risco de uma acusação de terrorismo no Reino Unido. Exigiu apenas decidir que uma cadeia de suprimentos não é complicada demais, nem distante demais, para ser rastreada e interrompida.

Uma guerra sustentada por uma rede transnacional de armas e finanças, em outras palavras, está sendo enfrentada por uma rede cidadã igualmente transnacional, porém muito mais improvisada. A ferramenta mais eficaz dessa rede cidadã até agora não tem sido o confronto — tem sido a documentação. Saber exatamente qual banco, qual fundo de pensão, qual subcontratada está implicada — e dizer isso publicamente e de forma persistente — já movimentou mais dinheiro do que qualquer bloqueio isolado. Essa é a tática com maior probabilidade de continuar legal, e bem-sucedida, no futuro próximo.


Artigo originalmente publicado em inglês na Foreign Policy in Focus, um projeto do Institute for Policy Studies.

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