Templo da paz ou teatro da força?

UNGA

O que os primeiros dias da reunião geral da ONU acabaram de revelar.
Por Macela Carmo dos Santos | 25 de setembro de 2026 Versão em Português Original no https://fpif.org

O fracasso da diplomacia, que está deixando crianças órfãs aos milhares no Sudão, em Gaza, na Ucrânia e no Irã, acaba de ocupar o centro do palco. Enquanto líderes mundiais se reuniam em Nova York para os primeiros dias da Assembleia Geral da ONU, o encontro não se dividiu pelas velhas linhas entre leste e oeste.

Em vez disso, os representantes ofereceram duas respostas concorrentes para a mesma pergunta: o que os países fazem quando a diplomacia fracassa?

O argumento pela paz

O presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva abriu o debate com um discurso que até agências de notícias céticas classificaram como notável. Ele disse à Assembleia que a ONU precisava voltar a ser um “templo da paz”. “O sentimento que me move hoje é a indignação”, afirmou, responsabilizando a paralisia do Conselho de Segurança e o poder de veto de seus membros permanentes por uma instituição cuja credibilidade nunca esteve tão baixa. Lula dedicou uma parte expressiva de sua fala a Gaza, acusando o governo Netanyahu de genocídio contra mulheres e crianças palestinas, ao mesmo tempo em que condenou os ataques do Hamas contra civis israelenses. Foi um raro caso de chefe de Estado que atribui culpa nas duas direções, em vez de escolher um lado e parar por aí.

O secretário-geral da ONU, António Guterres, em seu último discurso antes de o mandato terminar em dezembro, foi igualmente direto. “As linhas de fratura do nosso mundo estão se alargando. As rachaduras viraram abismos”, disse ele ao plenário. Alertando que o poderio militar, por si só, não garante a paz, apontou que os chamados cessar-fogo não passaram de “fogos menores”, enquanto os civis continuam pagando o preço.

“Basta”, disse ele, pedindo que a semana fosse usada para a desescalada, e não para a pose. As delagações o aplaudiram fielmente. Guterres encerrou sua década no cargo prometendo que continuará defendendo a convicção de que a paz é possível, mesmo depois de deixar o posto.

O argumento pela força

Então veio a outra metade do debate.

O discurso do presidente Trump foi, nas palavras do próprio presidente, uma defesa abrangente da força americana. Ele disse à Assembleia que “enquanto outros falaram, eu agi” e que os Estados Unidos contariam com seu poderio militar incomparável para garantir seus interesses em qualquer lugar do hemisfério ocidental. Defendeu a campanha militar em curso contra o Irã em termos explícitos, dizendo ao plenário que avaliava se deixaria Teerã se reconstruir por meio de um acordo ou se “aniquilaria a República Islâmica” de vez. A maior parte da delegação iraniana deixou o plenário durante a fala.

Além das declarações sobre o Irã, Trump aproveitou o mesmo discurso para defender a operação militar americana que derrubou o presidente da Venezuela. Também celebrou um novo acordo de segurança que amplia a presença militar americana na Groenlândia, território de um aliado da OTAN que ele repetidamente ameaçou tomar pela força, se necessário.

Enquanto Lula e Guterres mediram o ano em cessar-fogo que não se sustentaram e em crianças que pagaram o preço, Trump o mediu em alvos atingidos, guerras que diz ter encerrado e adversários que, segundo ele, agora estão fracos demais para resistir. Os dois campos dizem querer o fim dos combates, mas discordam fundamentalmente sobre o que faz isso acontecer e sobre como isso seria.

Duas filosofias, um só plenário

Seria um erro ler isso como uma divisão limpa entre pombas e falcões, ou entre o sul global e Washington, DC. O próprio governo de Lula está longe de ser pacifista, e Guterres passou uma década presidindo uma instituição que repetidamente falhou em impedir as guerras sobre as quais agora alerta.

Mas o contraste retórico desta semana foi bem fora do comum. Uma visão trata a diplomacia, o direito e a cooperação multilateral como o único caminho duradouro para a segurança; a outra trata o domínio militar como a opção mais rápida e, por isso, a única a levar a sério.

As crianças mortas ou deixadas órfãs continuam sendo a evidência mais clara do que acontece quando a segunda visão vence por inércia. Não porque a opção militar convença, mas porque ela anda mais rápido do que as instituições criadas para contê-la. O templo da paz de Lula e o “basta” de Guterres foram, cada um à sua maneira, argumentos de que a diplomacia ainda merece uma chance de alcançar o ritmo. Se o plenário que os aplaudiu fará algo para tornar isso verdade é, como sempre, outra pergunta.


Artigo originalmente publicado em inglês na Foreign Policy in Focus, um projeto do Institute for Policy Studies.

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