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A próxima Minab

minab parents

Mais importante do que quem tem razão numa guerra é quem será o próximo alvo inocente a ser atingido: uma criança na mesa da escola, uma família no prédio ao lado, um desconhecido no próximo voo.

Por Macela Carmo dos Santos | 23 de outubro de 2026 Versão em Português Original no https://fpif.org

Em um programa recente do Piers Morgan, o convidado foi Robert Pape, cientista político da Universidade de Chicago. O tema era o conjunto de guerras que agora se alimentam umas às outras: Rússia e Ucrânia, Iêmen e Arábia Saudita, Estados Unidos e Israel contra o Irã.

Pape, fundador do Chicago Project on Security and Threats, voltou-se para o perigo da certeza moral que se têm em uma guerra. Ele começou pelos manifestantes mortos no Irã:

“Sejam vários, milhares de manifestantes mortos pelo regime iraniano, ou mais do que isso, o fato é que matar manifestantes não é algo que consideremos simplesmente aceitável.“

Depois ele perguntou como as guerras ultrapassam seus próprios limiares:

“Como romper os limiares e como se geram ciclos de violência? Seja a guerras entre cidades, … e o que provoca isso tudo é a certeza moral de cada lado, que faz com que os civis sejam atacados cada vez mais e mais agressivamente, como se (os civis) merecessem.“

Sua pesquisa sobre terrorismo suicida, em Dying to Win e Cutting the Fuse, identifica a ocupação em terras estrangeiras como o principal fator. “A certeza moral é o combustível da armadilha da escalada(Escalation Trap)”, disse ele, nomeando o arcabouço que usa para antecipar como as guerras se ampliam.

A certeza moral identifica quem tem culpa. Ela não consegue prever quem está prestes a se ferir.

O que está documentado, o que não está

Em 28 de fevereiro, primeiro dia da guerra contra o Irã, um míssil atingiu a escola primária Shajareh Tayyebeh, em Minab, no sul do Irã. A AP contou cerca de 120 crianças entre os mortos. A mídia estatal iraniana apontou um total de 168, e a AFP informou pelo menos 155 mortos, a maioria crianças. Os repórteres ainda não tiveram acesso ou bem limitado, então o número exato continua em disputa.

A escola ficava ao lado de um complexo da Guarda Revolucionária, visivelmente separada desde 2016. O Congressional Research Service informa que um míssil Tomahawk atingiu a escola, e que uma investigação militar preliminar dos EUA concluiu que os Estados Unidos eram responsáveis, com base em informações de alvo desatualizadas. O secretário de estado Marco Rubio disse que os Estados Unidos “não atingiriam deliberadamente uma escola”. Meses depois, a AP informou que o Pentágono ainda não havia publicado suas conclusões sobre o incedente.

Os detalhes que ficaram comigo são mínimos. A AP descobriu que professores telefonaram aos pais para buscarem os filhos antes de o governo do Irã ordenar o fechamento das escolas naquela manhã, e alguns pais não chegaram a tempo.

Pode-se culpar a repressão de Teerã e seu programa nuclear, ou culpar a decisão de Washington de atacar. De qualquer modo, as crianças naquele prédio não escolheram nada, não eram responsáveis por nada e pagaram o preço final.

Minab também não foi a única ou última vez que isso aconteceu. No início de setembro, a Reuters informou que o Irã contabilizava 18 civis mortos em ataques dos EUA, incluindo quatro em um casamento. O secretário-geral da ONU disse estar profundamente alarmado. Mísseis e drones iranianos também atingiram cidades do Golfo, com ataques a aeroportos em Dubai e Abu Dhabi. Civis de todos os lados desta guerra pagaram por decisões que não tomaram.

O próximo prédio

No Amanpour & Company, da PBS, em 25 de março, Robert Pape disse que “mesmo com bombas inteligentes, haverá danos colaterais de natureza grave”, e que a raiva que isso deixa tem consequências: “estamos criando exatamente a raiva da qual surgem o terrorismo indiscriminado e pessoas dispostas a morrer (para) matar”. Em suas conversas semanais sobre a Escalation Trap, ele disse esperar que a próxima onda de violência venha de atacantes inspirados, e não de ataques dirigidos de forma centralizada.

A distinção importa. O especialista em contraterrorismo Bruce Hoffman disse ao programa Think, da KERA, em 18 de março, que nos nove primeiros dias da guerra “vimos três ataques graves nos Estados Unidos, um em Austin, onde duas pessoas foram assassinadas”, e que os autores pareciam “completamente motivados por sí só, fora de qualquer cadeia identificável de comando e controle terrorista”.

O atirador de Austin matou duas pessoas e feriu 14 em 1º de março. Ele usava uma camisa com a bandeira iraniana, e o FBI disse que investigava vínculos terroristas, mas a polícia afirmou que era cedo demais para apontar um motivo, e um boletim interno de contraterrorismo registrou um histórico de problemas de saúde mental. Em meados de março, um homem lançou um veículo contra o Temple Israel, uma sinagoga perto de Detroit, com cerca de 140 pessoas dentro, aproximadamente 106 delas crianças; nenhuma pessoa presente foi relatada como ferida. Uma autoridade libanesa anônima disse à AP que os dois irmãos do atacante e dois dos filhos deles haviam morrido em um ataque israelense dias antes. A AP não conseguiu confirmar isso, e as autoridades não haviam estabelecido um motivo.

Nenhum dos casos prova que a guerra causou a violência. Há também um contra-argumento sério: o analista do CSIS Daniel Byman observou em abril que o Irã não usou o terrorismo nesta guerra, e ofereceu várias explicações, entre elas a perda de capacidade, o medo de escalada e a utilidade dos mísseis e da interrupção do transporte marítimo. Ele também alertou que essa contenção pode ser uma pausa, e não um fim. A The American Conservative igualmente argumentou que o Irã tem poucos incentivos para orquestrar ataques, enquanto Hoffman alertou que o risco de incidentes de atores solitários aumenta quanto mais a guerra dura. A disputa é sobre quem e quando. Quase ninguém afirma que o risco diminui à medida que a guerra vai se prolongando.

O dano também não para nas fronteiras do Irã. O chefe de direitos humanos da ONU disse em 24 de setembro que no Iêmen, os civis estão “suportando o maior peso desta nova escalada dos combates”, com 32 civis mortos desde agosto, 15 deles crianças. Na Ucrânia, a ONU documentou 15.280 civis mortos ou feridos nos primeiros oito meses de 2026.

Por que a diplomacia perde a vez

Em 17 de setembro, a missão de apuração de fatos da ONU sobre o Irã encontrou motivos razoáveis para acreditar que as forças dos EUA cometeram crimes de guerra em dois ataques de fevereiro, incluindo Minab. Foi encontrado que a escola era claramente civil, que a informação da inteligência por trás do ataque não foi verificada adequadamente e que o ataque foi além da negligência. No mesmo relatório, a ONU concluiu que a repressão do Irã contra manifestantes desde o fim de dezembro equivale a crimes contra a humanidade. O número oficial do próprio Irã é de 3.038 mortos, que a ONU acredita subestimar o total real.

As duas conclusões são válidas. O governo dos EUA não aceitou a primeira delas: o presidente Trump disse em junho que “ninguém” atacou a escola de propósito, e o Pentágono ainda não publicou suas conclusões. Quem quer um único vilão precisa desviar o olhar de uma delas. É exatamente isso que o professor Pape quis dizer com certeza moral. Cada lado enxerga apenas as vítimas que o outro lado matou.

O segundo problema é a velocidade com que as coisas acontecem. O Pentágono usou uma plataforma de definição de alvos com IA chamada Maven para atacar mais de 13.000 alvos nos primeiros 38 dias da guerra contra o Irã. “Para os oficiais militares dos EUA, a velocidade do Maven na seleção e reseleção de alvos representa uma vantagem de combate distinta, permitindo que as forças americanas desativem com rapidez, e sem pausa, as capacidades de combate iranianas, impedindo retibuição”, escreve Michael Klare na Arms Control Today. A Politico informou em março que a equipe do Pentágono voltada a analisar e tentar diminuir baixas civis havia caído de cerca de 200 para menos de 40. Um ex-funcionário disse à AP que o ataque a Minab foi um resultado esperado desses cortes, e a ênfase disproporcinal que o secretário Hegseth coloca na letalidade dos ataques.

No início da guerra, Hegseth disse que a operação estava “apenas começando” e “acelerando, não desacelerando”. A força vem como um slogan, e como uma volta de vitória. A diplomacia vem com concessões, e a concessão não tem quem a aplauda. Um debate sobre quem tem razão sempre fará mais barulho do que uma pergunta sobre quem será o próximo.

O que seria preciso

Cinco mudanças ajudariam a evitar uma próxima fatalidade como a de Minab.

É importante mudar a primeira pergunta. Os presentadores(as) e produtores(as) de telejornais podem perguntar “quem tem mais probabilidade de ser ferido a seguir, e o que impediria isso?” antes de perguntar “quem tem razão?”. Eles e elas podem convidar investigadores de proteção de civis, trabalhadores humanitários e mediadores, assim como os representates de cada lado. E devem, também, tornar o dano a civis uma pauta permanente. Minab só volta às manchetes quando um novo documento vaza. Washington não pode continuar ignorando Minab, mas, para isso, legisladores e cidadãos precisam exigir a responsabilização. Uma revisão independente e uma explicação pública devem ser obrigatórias quando houver evidência de dano grave causado por um sistema de definição de alvos assistido por IA.

Para combater o esquecimento, é fundamental lembrar os nomes de cada uma das vítimas. A AP chama a escola em ruínas de Minab de memorial: “Isto nunca mais será uma escola.” Em março, a Win Without War depositou mochilas de crianças no Capitólio dos Estados Unidos, em memória das crianças mortas. As pessoas comuns podem manter esses memoriais diante de legisladores, senadores e deputados, prefeitos e governadores que prefeririam não olhar.

A diplomacia é essencial. Um cessar-fogo mediado pelo Paquistão em abril, que Imran Khalid, da FPIF, descreveu como “uma mudança no centro do mundo diplomático”, mostrou que a diplomacia ainda pode encontrar um caminho. Pape já afirmou que um acordo semelhante ao acordo nuclear de 2015 (o JCPOA) ainda é possível, com baixo enriquecimento de urânio, o alívio de sanções e com implementação de inspeções. Os eleitores e eleitoras podem dizer a seus representantes e suas representates que esse é o resultado que desejam.

Por fim, é preciso sustentar várias verdades ao mesmo tempo. A ONU encontrou fundamentos para crimes de guerra em Minab e crimes contra a humanidade contra manifestantes iranianos. Dizer isso com precisão, não equivalência, é o principal método de desafiar a certeza moral descrita por Pape.

O próximo prédio a ser atacado está em algum lugar. Ainda não é manchete. Ainda dá tempo de garantir que nunca seja.

Publicado originalmente em inglês na Foreign Policy In Focus: The Next Minab.

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