Lula vence eleição no Brasil e derrota a extrema direita.
Por Macela Carmo dos Santos | 25 de setembro de 2026 Versão em Português Original no https://fpif.org
O presidente que perdeu o primeiro turno venceu o segundo em uma virada sem precedentes. Luiz Inácio Lula da Silva ficou atrás de Flávio Bolsonaro no primeiro turno, em 4 de outubro de 2026, com 45,16% dos votos contra 47,03% de Bolsonaro. A Reuters o chamou de o azarão na corrida para o segundo turno. Três semanas depois, Lula tinha 64 milhões de votos e um quarto mandato. É a primeira vez desde a redemocratização do Brasil que um candidato derrotado no primeiro turno vence o segundo.
Não foi sorte. Os aliados de Lula se reuniram em Brasília no dia seguinte ao primeiro turno e culparam a comunicação pela falta de votos entre jovens e mulheres. O coordenador da campanha, Paulo Okamotto, anunciou uma rede de influenciadores de esquerda, e a campanha foi atrás dos 33 milhões de abstencionistas. Saiu da retórica da soberania para os temas do dia a dia, com panfletagem e comícios em estados onde a esquerda havia silenciado. Também colocou no centro um novo pacote econômico que incluía o fim da escala 6×1.
Esta é a quarta vitória de Lula em sete candidaturas à presidência. Ele perdeu as três primeiras vezes: em 1989, 1994 e 1998. Em 2002 ele mudou, e construindo alianças para além do seu partido, Lula conquistou a presidência pela primeira vez.
Talvez, para o povo brasileiro, Lula seja o menor de dois males. Mas, no cenário internacional, ele é a única escolha. O Brasil é o maior e mais populoso país da América do Sul, com a maior economia da região, que o FMI projeta como a oitava do mundo até 2027.
O histórico de Lula é a verdadeira razão da sua vitória e de todo o otimismo que os brasileiros sentem depois desta eleição. O Inpe informou que neste ano, o desmatamento na Amazônia caiu ao menor nível desde 1988, 42% abaixo do ano anterior. Os dois candidatos prometeram acabar com o desmatamento ilegal, mas só Lula o reduziu-o drasticamente. Sob Jair Bolsonaro, pai de Flávio Bolsonaro, a floresta perdia cerca de 11.600 quilômetros quadrados por ano.
A mesma diferença aparece nas salas de aula. Sob Jair Bolsonaro, metade das instituições federais enfrentaram cortes de 50% no orçamento. O programa de Lula promete concluir novas universidades, ampliar os hospitais universitários e criar 111 institutos técnicos. Seu programa Pé-de-Meia já atingiu 7,3 milhões de estudantes desde 2024. Alunos do ensino médio público de famílias de baixa renda recebem R$ 200 mensais, um depósito de R$ 1.000 a cada ano em que passam de ano e um bônus por fazer o Enem. Permanecer na escola compensa.
No plano internacional, a principal aliada de Lula é Dilma Rousseff, removida pelo Congresso brasileiro em 2016 em um impeachment que ela e seus aliados chamam de golpe. Hoje ela preside o banco do BRICS em um mandato que vai até 2030, e o Brasil sediou a cúpula de 2025.
O exemplo mais claro do peso internacional de Lula é Teerã. Em maio de 2010, Lula e o turco Erdoğan persuadiram o Irã a enviar metade de seu urânio de baixo enriquecimento para a Turquia em troca de combustível para um reator médico. Na época, eles levaram uma carta de abril de Obama com os termos do acordo. Lula contou que conquistou o aiatolá Khamenei ao contar a própria história. Em uma entrevista de 2019, disse que Khamenei “se apaixonou por mim” ao saber que ele só comeu pão pela primeira vez aos sete anos.
E a resposta de Washington foi rápida. Hillary Clinton rejeitou o acordo no dia seguinte e anunciou uma resolução de sanções. Em 2010, a administração já havia obtido o apoio de Rússia e China um dia antes de as negociações em Teerã começarem. Dezesseis anos depois, com uma guerra entre EUA e Irã em curso, Lula entregou a Trump o mesmo acordo mais uma vez.
O próximo teste vem em 3 de novembro, com as eleições de meio de mandato nos EUA. Os colaboradores da FPIF Anthony Pereira e Stanley Gacek alertaram em setembro que Washington sob Trump, impôs tarifas e entrou em atrito com Lula por causa de vistos, mas que um novo Congresso poderia limitar o que o governo fará a seguir. Se os eleitores americanos controlarem esse poder, a escolha do Brasil terá mais chance de ser respeitada.
Nesta semana, Lula venceu, os brasileiros venceram e o mundo venceu. Agora vamos ver quem vence em 3 de novembro.
Publicado originalmente em inglês na Foreign Policy In Focus: Democracy Wins in Brazil!.


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